
Minha avó paterna era uma típica senhora de família tradicional, daquelas que conservam uma postura aristocrática, resquícios dos tempos áureos que ficaram pra trás. Vó Linda era de poucas palavras e, mesmo não sendo carrancuda, tinha um semblante inalterável, plácido, distante. Sinceramente, não me lembro de tê-la visto sorrindo alguma vez. Nunca saía de casa, viu a vida passar pela janela. A casa era escura, silenciosa, de rotina conservadora, mas tinha um velho piano na sala, a coisa que mais me atraía naquele ambiente sem cor. Enfim, convivemos pouco, pois quando ela se foi, eu ainda era uma menina.
Minha avó materna era absolutamente o oposto: de origem muito humilde, ficou viúva cedo e precisou trabalhar arduamente para criar sozinha os cinco filhos. Todavia, apesar das dificuldades por que passou e da vida simples que levava, era alegre, intensa, brincalhona, divertida, expressiva, às vezes até exagerada, carinhosa e sempre muito presente em nossas vidas durante os seus 88 anos bem vividos, e grande parte deles morando conosco. Gostava de dançar, de viajar; era uma sumidade na arte de cozinhar e uma artesã de mão cheia. Quando nos deixou, eu já era uma balzaquiana. Sinto uma saudade tão grande da minha avó. Éramos muito apegadas e eu me lembro dela todos os dias.

A propósito, estou prestes a me tornar tia-avó. Minha primeira sobrinha-neta nasce por esses dias. Estou ansiosa para ver a nossa princesinha.
Jandira.